Produção de carne bovina do Brasil deve recuar com restrições na China e UE, diz Abiec
O presidente da Abiec disse que, pelas informações do governo brasileiro, não há possibilidade de negociação das cotas, que deverão vigorar nos próximos três anos, conforme plano da China para proteger seus produtores locais.
As empresas de carne bovina do Brasil, maior produtor e exportador global, têm reduzido atividades para lidar com desafios como a queda nos embarques para a China e incertezas nos negócios com a União Europeia, visando preservar suas margens, disse o presidente da associação das indústrias do setor, a Abiec, nesta quinta-feira (16).
A redução nas exportações e os preços mais baixos esperados nas vendas externas no segundo semestre vão resultar em maior oferta para o mercado brasileiro em um primeiro momento, pressionando os preços domésticos. Mas isso seria provisório, avaliou Roberto Perosa, a jornalistas.
"No segundo momento... (frigoríficos) tendem a diminuir produção para manter margem e conseguir cumprir compromissos financeiros", afirmou o presidente da associação que reúne companhias como JBS, MBRF e Minerva.
"No curto prazo, pode ter arrefecimento, mas no médio prazo deve crescer preço no mercado interno", completou, lembrando do efeito da queda na produção, sem detalhar volumes.
A Abiec manteve uma estimativa de redução de 10% nos volumes das exportações do Brasil em 2026 ante 2025, principalmente por conta das restrições tarifárias da China, que impôs uma cota muito inferior ao que o país exportou em 2025 para o seu principal mercado.
A exportação de carne bovina do Brasil para a China deverá ficar entre 850 mil e 900 mil toneladas em 2026, ante 1,65 milhão de toneladas em 2025, já que os chineses consideraram embarques do final do ano passado para preencher a cota de 1,1 milhão de toneladas com taxa mais baixa. A partir disso, a alíquota é de 55%.
Nessa conjuntura em que a maior parte da cota foi preenchida no primeiro semestre, Perosa revelou que mais de 20 companhias já anunciaram férias coletivas, enquanto outras estão considerando seguir este caminho na próxima semana.
A exportação é importante para garantir a rentabilidade das companhias -- embora o mercado interno absorva uma parte maior da produção --, e não há outro destino capaz de absorver a demanda dos chineses, ainda que o Brasil esteja ampliando embarques para países como os Estados Unidos.
REPENSAR ESTRATÉGIA E INCERTEZAS COM UE
O presidente da Abiec disse que, pelas informações do governo brasileiro, não há possibilidade de negociação das cotas, que deverão vigorar nos próximos três anos, conforme plano da China para proteger seus produtores locais.
As dificuldades das companhias brasileiras junto ao seu principal mercado, que deu grande impulso à produção nacional, estão levando o setor a "repensar" o sistema produtivo, disse o presidente da Abiec, lembrando que o abate de gado no Brasil saiu de 30 milhões de cabeças há cinco anos para 42 milhões em 2025.
"Atingimos um alto grau de produção e produtividade e agora o principal mercado que demandava esta carne, este produto, não está demandando mais no mesmo volume...", disse, observando que outros países como Austrália e Argentina também estão sujeitos a cotas.
Além das dificuldades na China, há incertezas adicionais em relação à União Europeia, que retirou o Brasil de uma lista de fornecedores devido a questões sanitárias.
O governo brasileiro negocia com os europeus, mas Perosa disse que há forte possibilidade de o Brasil parar de exportar à UE a partir de setembro.
A reivindicação da UE tem relação com o uso de antimicrobianos no sistema produtivo de carnes. O Ministério da Agricultura já alterou os controles relacionados para atender à legislação da Europa, mas não há sinalização até o momento de que o bloco europeu vá ceder.
O governo brasileiro e o setor de carnes vêm buscando apresentar garantias e adequações ligadas aos antimicrobianos desde que as autoridades europeias divulgaram, em maio, que o Brasil não estava na lista de países autorizados a exportar carnes e outros produtos de origem animal ao bloco.
A UE é importante destino de carnes do Brasil, especialmente de produtos de valor agregado. No caso do frango, os totais exportados à UE somaram cerca de US$800 milhões em 2025. Em bovinos, as exportações ao bloco superaram US$1 bilhão.
