Trabalhadores são resgatados em condições análogas à escravidão em carvoaria em Brasilândia de Minas

Os trabalhares chegavam a usar livros didáticos, roupas, bonés e até pedaços de pano no lugar de papel higiênico

por Rafael Ribeiro
06/03/2021 - 10h15

Patos Já - Trabalhadores são resgatados em condições análogas à escravidão em carvoaria em Brasilândia de Minas

Após uma operação Ministério Público do Trabalho 66 pessoas que viviam em condições análogas à escravidão, foram resgatadas em uma carvoaria localizada em Brasilândia de Minas (MG). Além de ter seus documentos retidos, o grupo estava em condições tão degradantes que usava as próprias roupas e folhas de livros didáticos descartados na ausência de papel higiênico.

Os trabalhadores foram resgatados nesta sexta-feira (05), após uma fiscalização coordenadora pela auditora fiscal do trabalho Andréia Donin, juntamente com o Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, Polícia Federal e Defensoria Pública da União. No local, foi verificado que os trabalhadores estavam sendo colocados em frentes de trabalho sem as mínimas condições e sem nenhuma medida de prevenção ao Coronavírus.

A maioria dos trabalhadores encontrados pela fiscalização eram de municípios do Paraná. Alguns teriam sido aliciados em abrigos, após ficarem desempregados durante a pandemia.

Os migrantes tiveram os documentos retidos pelo empregador, inclusive carteiras de trabalho que não foram assinadas, RGs, CPFs, carteiras de habilitação, certificados de reservista, títulos de eleitor, certidões de nascimento e até um cartão bancário. A manutenção de documentos pessoais com os patrões é uma prova forte que a empresa mantinha as pessoas a força no local.  

Os resgatados teriam recebido promessas falsas como remuneração de R$ 3 mil por mês, bons alojamentos, passagens e ida e volta. Quando chegavam no local viam que a realidade era totalmente diferente. Os alojamentos, de acordo com a fiscalização, eram precários. Não havia camas para todos. Em um deles, os trabalhadores dividiam espaço com um depósito de óleo diesel e gasolina, mas não haviam sido informados disso. O grupo contava com fumantes e havia o risco de pegar fogo.

Além de não ganharem nem um salário mínimo os salários estavam atrasados. Nos alojamentos, foram encontrados livros didáticos que haviam sido usados no lugar de papel higiênico. Alguns também se limpavam com a roupa, com o boné, com um pedaço de pano. Por não existir banheiro no local, os trabalhadores realizavam as necessidades no meio do mato.

Parte dos trabalhadores deixava o alojamento às 4h30 e só voltava no final da tarde. Também não havia local para lavar as mãos e cobertas sujas de fuligem. Eles almoçavam ao lado dos fornos ou nos locais de corte de madeira. Não contavam com todos equipamentos de proteção individuais apropriados para todos.

As duas empresas são pequenas, mas fornecem para siderúrgicas da região de Sete Lagoas e Divinópolis. O Ministério Público do Trabalho (MPT) está investigando as cadeias produtivas do carvão vegetal para a fabricação do aço na região e defende que indústrias também são responsáveis pela situação.

Os dois empregadores, de pequeno porte, foram obrigados a pagar quase R$ 405 mil em salários e verbas rescisórias e fecharam termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público do Trabalho e a Defensoria Pública da União. Com isso, prometeram pagar R$ 574 mil entre danos morais individuais e coletivos, aos trabalhadores e à sociedade.

Esse é o terceiro resgate de trabalhadores em condições análogas às de escravo em carvoarias de Minas Gerais neste ano. A atividade foi o segundo maior palco de libertações de pessoas em 2020.

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